"Lutaremos até que ninguém possa lutar contra nós..."

terça-feira, 24 de julho de 2012

Tudo nos é proibido, a não ser cruzarmos os braços?

        A pobreza não está escrita nos astros; o subdesenvolvimento não é fruto de um obscuro desígnio de Deus. As classes dominantes põem as barbas de molho, e ao mesmo tempo anunciam o inferno para todos. De certo modo, a direita tem razão quando se identifica com a tranquilidade e a ordem; é a ordem, de fato, da cotidiana humilhação das maiorias, mas ordem em última análise; a tranquilidade de que a injustiça continue sendo injusta e a fome faminta. Se o futuro se transforma numa caixa de surpresas, o conservador grita, com toda razão: "Traíram-me." E os ideólogos da impotência, os escravos, que olham a si mesmo com os olhos do dono, não demoram a escutar seus clamores. A águia de bronze do MAINE, derrubada no dia da vitória da revolução cubana, jaz agora abandonada, com as asas quebradas sob o portal do bairro velho de La Habana. A partir de Cuba, outros países iniciaram, por vias distintas e com meios distintos, a experiência da mudança: a perpetuação da ordem atual das coisas é a perpetuação do crime. RECUPERAR OS BENS QUE SEMPRE FORAM USURPADOS, EQUIVALE A RECUPERAR O DESTINO.
                                                     As Veias Abertas da América Latina, Eduardo Galeano

        Nossa derrota esteve sempre implícita na vitória alheia, nossa riqueza gerou sempre a nossa pobreza para alimentar a prosperidade dos outros: os impérios e seus agentes nativos. Na alquimia colonial e neo-colonial, o ouro se transforma em sucata e os alimentos se convertem em veneno...
        A chuva que irriga os centros do poder imperialista afoga os vastos subúrbios do sistema. Do mesmo modo, e simetricamente, o bem estar de nossas classes dominantes -dominantes para dentro, dominadas de fora- é a maldição de nossas multidões, condenadas a uma vida de bestas de carga...
                                                As Veias Abertas da América Latina, Eduardo Galeano